queridos ortega e mari,
agora que animei mesmo a acompanhar vocês nessa história de escrever cartas, estou começando a me preocupar. de onde vou tirar o que contar aqui? isso porque tanto você, mari, quanto você, ortega, estão (ou logo estarão), longe de casa. e o fato de estar a quilômetros do travesseiro de infância e do cheiro do surrado cobertor de estimação é, pra mim, das coisas que mais dão vontade de escrever uma carta.
tudo bem que eu já não uso travesseiro e aposentei há um bom tempo o meu cobertor de estimação, mas ainda assim, a saudade do ninho ainda existe, só que, às vezes, a falta do aconchego de casa bate de um jeito tão gostoso que é até mais aconchegante que o próprio aconchego de casa. acho que é a saudade ideal, sabe? porque ela é bonita e levezinha, sem um pingo de medo. desconfio de que o segredo seja guardar lá no fundo aquela segurança das portas abertas na hora da volta. mas só desconfio.
bem, nas cartas aí de baixo, vocês falaram um pouco de estar só e estar longe. gosto de pensar nesses momentos como chances que você tem para fazer amizade consigo mesmo. é uma angustiazinha que, quando vista pelo retrovisor, parece muito mais válida que o domingo à tarde enclausurado no quarto, na casa de sempre, onde o aconchego vira tédio, e o tédio, uma tristeza abafada.
espero que não soe como a escolha entre o sujo e o mal-lavado, mas eu gosto muito mais da solidão a céu-aberto. você a coloca o eu-sozinho no bolso e leva o danado pra passear. se ele for muito grande, a gente prende uma coleira pra que ele não fuja (o que seria do eu sem o eu-sozinho?) e bora pras praças cheias de desconhecidos, pras ruas novas. é fascinante...
foi com esses passeios que descobri que meu eu-sozinho é muito mais legal que eu imaginava.. ele faz umas piadas interessantes, que muitas vezes me fazem parecer meio maluca, a dar gargalhadas na fila do supermercado, dentro do ônibus, no parque.. o único perigo que pode aparecer nessas horas de diversão é a tentação do autismo ;)
sabe a mulher daquele vídeo que você me passou, mari? o 14ème arrondissement? pois é. acho que o momento da mordida no sanduíche foi uma espécie de beijo estalado na testa do eu-sozinho dela. o que vocês acham? vocês já tiveram essa sensação enquanto viajavam? será que tem como viver isso na esquina de casa mesmo? hm. vou discutir isso com meu eu-sozinho durante a viagem de metrô até o #1. mas digam-me o que vocês acham também, ok?
abraço com carinho vocês e seus respectivos eus-sozinhos!
sue
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