segunda-feira, 3 de setembro de 2007

O portão

Belo Horizonte, 3 de setembro de 2007

Belo Horizonte,

Em clima de despedida, escrevo em você, para você. E de uma coisa eu tenho certeza: o clichê “não é adeus” serve para nós. Vou embora em poucos dias, eu sei. E não me leve a mal. Nunca terá sido nada contra você. Quando vejo as pessoas que já te abandonaram propalando injúrias a seu respeito, dá uma dor aqui.

É que seu sei. Você tem aquele ar provinciano sim. E as montanhas ao seu redor podem ter deixado as pessoas acomodadas demais. Mas gosto tanto de ti que é como aquele amigo especial, de quem a gente acaba admirando até os pequenos defeitos. Aliás, não considero nem que esse provincianismo seu chegue a ser uma imperfeição. E, de fato, só consigo enxergá-lo mesmo agora que estou indo embora.

Bom... e aí a gente precisa voltar lá em 2002, ano em que vim ao seu encontro. Egressa de uma cidade interiorana com 70 mil habitantes, tive uma noção de grandeza ao chegar em você que não iria imaginar. Tudo era grande, distante e confuso. Eu não conhecia meu vizinho e ninguém na rua sabia quem eu era. Por falar em rua, eu tive que aprender os nomes das ruas. Não dava mais para falar “é ali na rua perto do clube, atrás do posto de gasolina”. Gostei de você logo assim de cara. Assustei-me com os preços das coisas e me perdi com seu trânsito. Aliás, nunca entendi direito como uma cidade planejada como você pode ter um mapa tão confuso. Ninguém te imaginava além da Contorno, certo?

Com esse gosto por você, decidi que era em você que precisava ficar por um tempo. E eu não trocaria por nada a experiência de ter me estabelecido em você, ainda que longe da família. Eu sei, tive que te abandonar em alguns feriados por causa disso, mas tudo bem, você não acontece nos feriados, certo?

E por falar em experiências, existem as inesquecíveis: caminhar na Praça de Liberdade, pegar o 5102 lotado e parar na faculdade, ver jogo do Cruzeiro no Mineirão (droga, por que fui descobrir isso tão tarde?), sentir o seu cheiro bom de inverno, andar na Savassi... ah, a Savassi... merecedora de uma carta completa, só para ela, para seus dias de cafés e para as madrugadas saídas da Obra com os amigos para comer fast food (ou ao menos vê-los comer).

Mas uma cena de 2002 que ainda guardo na memória é bem representativa do que mais sentirei falta. Eu e meu irmão em uma padaria da Savassi, perdidos na hora das compras (porque quando a gente muda de cidade até comprar o pão é diferente.) A vendedora nos explica o esquema. Agradecemos, pagamos. E ela sorri e nos diz: “Sejam bem-vindos a Belo Horizonte”.

São esses sorrisos dessas pessoas desconhecidas e os abraços das pessoas amigas que me farão voltar. Só não sei se, quando isso acontecer, poderei dizer que “voltei para ficar”. O problema é que, ao contrário do rei, ainda preciso descobrir qual o meu lugar.

Um abraço do seu tamanho,

Mariana