domingo, 11 de maio de 2008

Perto do coração

Queridos leitores,

Se por ventura do google vocês chegaram ao Cartas Reveladas com a intenção de procurar ajuda para escrever sua carta, aqui estamos. Seja uma carta aos pais avisando o abandono do lar, ao antigo amor que você quer de volta, uma carta de despedida, ou simplesmente para aquele amigo da faculdade, não hesite em pedir nossa ajuda. Com carinho, faremos sua carta e torceremos para que você consiga o desejado.

Nada cobraremos. Sua felicidade valerá nosso esforço.

Para pedir sua carta é só mandar um e-mail para cartaencomendada@gmail.com

Abraços,

Mari e Ortega

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Arthur's Seat


Primo Arthur,

Ao escalar o extinto vulcão conhecido como Arthur’s Seat, pensei em você. Pensei em como você é pequeno e ainda tem tanta coisa para descobrir. Você ainda não sabe, por exemplo, que o Arthur’s Seat fica em Edimburgo, que é a capital de um país chamado Escócia. O mundo não deve fazer muito sentido para você que tem menos de um ano de vida. Sabia que, quando a gente cresce, esse tal de mundo continua sem fazer sentido? É que é tão simples e tão complicado ao mesmo tempo.

Esse tal paradoxo – você ainda vai aprender nas aulas de português o que é um “paradoxo” – acontece por culpa de uma outra coisa, a qual a gente nomeou “amor”. Você pode não entender o que é isso direito, mas essa coisa já existe dentro de você. Hmmm.. olha, deixa eu tentar te explicar: as pessoas que mais te amam são seus pais. Esse tipo de amor eu não sei como é porque não tenho filhos. Mas sei de alguns outros ... Por exemplo, existe o amor fraterno e eu espero que você tenha irmãos um dia para poder sentir o que eu sinto pelo seu primo Eugênio.

Tem também um outro tipo de amor que você vai sentir, por mais que não queira. É que esse acontece de maneira inesperada e a gente não escolhe hora, local ou pessoa por quem sentir isso. Funciona mais ou menos assim: a gente ama alguém, que pode ou não amar a gente de volta. Pode ser também que esse alguém nos ame por um tempo e depois deixe de nos amar. É que a coisa vai embora do mesmo jeito que veio, entende? Ou então esse alguém deixa de nos amar porque apareceu um outro alguém. Ah, a gente também pode amar dois alguéns ao mesmo tempo porque esses alguéns podem nos completar de diferentes maneiras! Tem vezes também que a gente não ama uma pessoa, mas ela nos ama mesmo assim. Outra coisa que acontece é que a gente pode amar uma pessoa, desamar e depois voltar a amar essa mesma pessoa novamente! E tem vezes, Arthur, que a coisa é para sempre.

Complicado, né primo? Mas sabe, nem tudo é difícil assim. É que, às vezes, a gente acha o amor em coisas mais simples. A gente pode amar, por exemplo, uma cidade. Ou um som. Ou um cheiro. Às vezes a gente encontra amor em um sorvete de baunilha com café. Ou em um livro que um amigo nos deu de presente. Ou em uma vista do topo de um vulcão extinto. Esse amor pode ser tão intenso a ponto de fazer o seu coração bater depressa. E, em alguns momentos, você vai sentir necessidade de rir ou de chorar por causa disso.

Mas, Arthur, o melhor de tudo é quando esse sentimento, seja causado pelo motivo que for, te faz sentir vivo. O mais bonito é que isso pode acontecer porque a coisa-amor encontra a coisa-felicidade.

De lá de cima, o mundo me pareceu tão simples.

Com amor,

Mariana

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Hortinho


Prezada pessoa responsável pelos outdoors do Hortifruti,

não ligue para os chatos que te criticam, são todos invejosos. Obrigado por fazer meus passeios pelo Rio mais felizes.

Abraços,

Ortega







sábado, 20 de outubro de 2007

Hyde Park

Londres, 18 de outubro de 2007

Querido irmão,

Alguns amigos que já viajaram sozinhos para o exterior haviam me dito que, na verdade, nunca estamos sós. Hoje entendo bem o que eles quiseram dizer.

Sempre que saio por aqui levo comigo pessoas queridas. Pessoas que amo e que, por uma questão geográfica, deixei por aí. Quando vou aos shows aqui, sempre tem um amigo aplaudindo junto. Quando vou às lojas, sempre tenho a companhia de uma amiga para rir do quanto somos pobres por aqui.

Hoje foi um dia muito especial porque levei você para passear comigo. Aproveitando que não tive aula e que o clima estava bom, resolvemos passar uma agradável tarde no Hyde Park. Pensamos em alugar uma bicicleta, mas era tão mais caro que os três reais de Paquetá que desistimos de vez. Fomos andando e demos uma volta grande pelo parque. Conversamos sobre as possíveis futuras mudanças em nossas vidas. Falamos sobre as cidades do nosso passado e sobre cidades que ainda virão. Lembramos de alguns filmes. Vimos um cachorro e pensamos no quanto o Billy faz falta. Tiramos algumas fotos durante o pôr-do-sol. Nessa hora, começou a esfriar e decidimos parar em um café. Lembramos da época em que não gostávamos de cafeína e rimos dos tipos britânicos ao nosso lado.

Espero você aqui em abril. E aguardo com ansiedade seu e-mail me contando tudo. Definitivamente, você precisa me escrever mais.

De um café nas redondezas do Hyde Park.
Com amor,

Sua irmã

sábado, 13 de outubro de 2007

Bilhetim

Marinha,
quem vê de longe não imagina que uma menina tão pequena faça falta assim. Sei que desse lado aí o mundo está mais claro e mais doce com você. Mas aqui eu sinto sua falta, e sinto muito.
Bjos,
Ortim

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

O portão

Belo Horizonte, 3 de setembro de 2007

Belo Horizonte,

Em clima de despedida, escrevo em você, para você. E de uma coisa eu tenho certeza: o clichê “não é adeus” serve para nós. Vou embora em poucos dias, eu sei. E não me leve a mal. Nunca terá sido nada contra você. Quando vejo as pessoas que já te abandonaram propalando injúrias a seu respeito, dá uma dor aqui.

É que seu sei. Você tem aquele ar provinciano sim. E as montanhas ao seu redor podem ter deixado as pessoas acomodadas demais. Mas gosto tanto de ti que é como aquele amigo especial, de quem a gente acaba admirando até os pequenos defeitos. Aliás, não considero nem que esse provincianismo seu chegue a ser uma imperfeição. E, de fato, só consigo enxergá-lo mesmo agora que estou indo embora.

Bom... e aí a gente precisa voltar lá em 2002, ano em que vim ao seu encontro. Egressa de uma cidade interiorana com 70 mil habitantes, tive uma noção de grandeza ao chegar em você que não iria imaginar. Tudo era grande, distante e confuso. Eu não conhecia meu vizinho e ninguém na rua sabia quem eu era. Por falar em rua, eu tive que aprender os nomes das ruas. Não dava mais para falar “é ali na rua perto do clube, atrás do posto de gasolina”. Gostei de você logo assim de cara. Assustei-me com os preços das coisas e me perdi com seu trânsito. Aliás, nunca entendi direito como uma cidade planejada como você pode ter um mapa tão confuso. Ninguém te imaginava além da Contorno, certo?

Com esse gosto por você, decidi que era em você que precisava ficar por um tempo. E eu não trocaria por nada a experiência de ter me estabelecido em você, ainda que longe da família. Eu sei, tive que te abandonar em alguns feriados por causa disso, mas tudo bem, você não acontece nos feriados, certo?

E por falar em experiências, existem as inesquecíveis: caminhar na Praça de Liberdade, pegar o 5102 lotado e parar na faculdade, ver jogo do Cruzeiro no Mineirão (droga, por que fui descobrir isso tão tarde?), sentir o seu cheiro bom de inverno, andar na Savassi... ah, a Savassi... merecedora de uma carta completa, só para ela, para seus dias de cafés e para as madrugadas saídas da Obra com os amigos para comer fast food (ou ao menos vê-los comer).

Mas uma cena de 2002 que ainda guardo na memória é bem representativa do que mais sentirei falta. Eu e meu irmão em uma padaria da Savassi, perdidos na hora das compras (porque quando a gente muda de cidade até comprar o pão é diferente.) A vendedora nos explica o esquema. Agradecemos, pagamos. E ela sorri e nos diz: “Sejam bem-vindos a Belo Horizonte”.

São esses sorrisos dessas pessoas desconhecidas e os abraços das pessoas amigas que me farão voltar. Só não sei se, quando isso acontecer, poderei dizer que “voltei para ficar”. O problema é que, ao contrário do rei, ainda preciso descobrir qual o meu lugar.

Um abraço do seu tamanho,

Mariana

terça-feira, 21 de agosto de 2007

o passeio do eu-tu-ele-nós-sozinho

belo horizonte, 21 de agosto de 2007

queridos ortega e mari,

agora que animei mesmo a acompanhar vocês nessa história de escrever cartas, estou começando a me preocupar. de onde vou tirar o que contar aqui? isso porque tanto você, mari, quanto você, ortega, estão (ou logo estarão), longe de casa. e o fato de estar a quilômetros do travesseiro de infância e do cheiro do surrado cobertor de estimação é, pra mim, das coisas que mais dão vontade de escrever uma carta.

tudo bem que eu já não uso travesseiro e aposentei há um bom tempo o meu cobertor de estimação, mas ainda assim, a saudade do ninho ainda existe, só que, às vezes, a falta do aconchego de casa bate de um jeito tão gostoso que é até mais aconchegante que o próprio aconchego de casa. acho que é a saudade ideal, sabe? porque ela é bonita e levezinha, sem um pingo de medo. desconfio de que o segredo seja guardar lá no fundo aquela segurança das portas abertas na hora da volta. mas só desconfio.

bem, nas cartas aí de baixo, vocês falaram um pouco de estar só e estar longe. gosto de pensar nesses momentos como chances que você tem para fazer amizade consigo mesmo. é uma angustiazinha que, quando vista pelo retrovisor, parece muito mais válida que o domingo à tarde enclausurado no quarto, na casa de sempre, onde o aconchego vira tédio, e o tédio, uma tristeza abafada.

espero que não soe como a escolha entre o sujo e o mal-lavado, mas eu gosto muito mais da solidão a céu-aberto. você a coloca o eu-sozinho no bolso e leva o danado pra passear. se ele for muito grande, a gente prende uma coleira pra que ele não fuja (o que seria do eu sem o eu-sozinho?) e bora pras praças cheias de desconhecidos, pras ruas novas. é fascinante...

foi com esses passeios que descobri que meu eu-sozinho é muito mais legal que eu imaginava.. ele faz umas piadas interessantes, que muitas vezes me fazem parecer meio maluca, a dar gargalhadas na fila do supermercado, dentro do ônibus, no parque.. o único perigo que pode aparecer nessas horas de diversão é a tentação do autismo ;)

sabe a mulher daquele vídeo que você me passou, mari? o 14ème arrondissement? pois é. acho que o momento da mordida no sanduíche foi uma espécie de beijo estalado na testa do eu-sozinho dela. o que vocês acham? vocês já tiveram essa sensação enquanto viajavam? será que tem como viver isso na esquina de casa mesmo? hm. vou discutir isso com meu eu-sozinho durante a viagem de metrô até o #1. mas digam-me o que vocês acham também, ok?

abraço com carinho vocês e seus respectivos eus-sozinhos!

sue