terça-feira, 21 de agosto de 2007

o passeio do eu-tu-ele-nós-sozinho

belo horizonte, 21 de agosto de 2007

queridos ortega e mari,

agora que animei mesmo a acompanhar vocês nessa história de escrever cartas, estou começando a me preocupar. de onde vou tirar o que contar aqui? isso porque tanto você, mari, quanto você, ortega, estão (ou logo estarão), longe de casa. e o fato de estar a quilômetros do travesseiro de infância e do cheiro do surrado cobertor de estimação é, pra mim, das coisas que mais dão vontade de escrever uma carta.

tudo bem que eu já não uso travesseiro e aposentei há um bom tempo o meu cobertor de estimação, mas ainda assim, a saudade do ninho ainda existe, só que, às vezes, a falta do aconchego de casa bate de um jeito tão gostoso que é até mais aconchegante que o próprio aconchego de casa. acho que é a saudade ideal, sabe? porque ela é bonita e levezinha, sem um pingo de medo. desconfio de que o segredo seja guardar lá no fundo aquela segurança das portas abertas na hora da volta. mas só desconfio.

bem, nas cartas aí de baixo, vocês falaram um pouco de estar só e estar longe. gosto de pensar nesses momentos como chances que você tem para fazer amizade consigo mesmo. é uma angustiazinha que, quando vista pelo retrovisor, parece muito mais válida que o domingo à tarde enclausurado no quarto, na casa de sempre, onde o aconchego vira tédio, e o tédio, uma tristeza abafada.

espero que não soe como a escolha entre o sujo e o mal-lavado, mas eu gosto muito mais da solidão a céu-aberto. você a coloca o eu-sozinho no bolso e leva o danado pra passear. se ele for muito grande, a gente prende uma coleira pra que ele não fuja (o que seria do eu sem o eu-sozinho?) e bora pras praças cheias de desconhecidos, pras ruas novas. é fascinante...

foi com esses passeios que descobri que meu eu-sozinho é muito mais legal que eu imaginava.. ele faz umas piadas interessantes, que muitas vezes me fazem parecer meio maluca, a dar gargalhadas na fila do supermercado, dentro do ônibus, no parque.. o único perigo que pode aparecer nessas horas de diversão é a tentação do autismo ;)

sabe a mulher daquele vídeo que você me passou, mari? o 14ème arrondissement? pois é. acho que o momento da mordida no sanduíche foi uma espécie de beijo estalado na testa do eu-sozinho dela. o que vocês acham? vocês já tiveram essa sensação enquanto viajavam? será que tem como viver isso na esquina de casa mesmo? hm. vou discutir isso com meu eu-sozinho durante a viagem de metrô até o #1. mas digam-me o que vocês acham também, ok?

abraço com carinho vocês e seus respectivos eus-sozinhos!

sue

sábado, 11 de agosto de 2007

Corra, Apolônio, Corra

Rio de Janeiro, 11 de agosto de 2007

Querida Mari,

Não imaginava que graças a você, à internet e ao Blogger eu poderia enfim realizar meu velho desejo de trocar cartas com amigos distantes, molhando a ponta da caneta no tinteiro para escrever em uma grande folha de papel, logo depois fechada com cera e entregue a meu fiel ajudante Apolônio para que ele leve ao mensageiro.

Essa imagem pode ser bobeira minha, mas as confidências e as caraminholas cerebrais que a gente imagina que existem nestas velhas cartas, atualizadas com nossas novas aventuras, são coisas que eu imaginei que podemos revelar aqui. Acho legal variar os destinatários e também ter remetentes convidados.

São Paulo estava estranhamente ensolarada e quente. Conheci a rua Augusta e fui parar no lugar menos esquisito da região, um bar mexicano chamado Exquisito. Fiz uma amiga e quase comprei uma revista com a Kelly Clarkson na capa. Mas tive que voltar ao aeroporto para encarar meu novo e terrível medo de voar (isso fica para outra carta).

O Empório e o Centro são dois dos lugares aos quais eu diria que você tem que ir se você já não tivesse ido (ah, na sua volta pelo Centro você foi ao CCBB?). Mas acho que sou menos especialista em "lugares para passear no Rio" do que em "ficar sozinho no Rio".

Nos nossos últimos papos, me sinto conversando comigo mesmo, quando você fala sobre sentir falta de pessoas aqui, sobre momentos de alegria com a família e alguns amigos e sobre andar sozinho procurando naqueles prédios antigos alguma coisa que você não sabe o que é mas sabe que é muito importante. Tomara que suas conversas com os prédios em inglês britânico sejam boas.

Não consigo tirar da cabeça sua frase sobre os "doces de preços salgados". Comer um doce da Colombo sozinho ou sem alguém que possa te dizer uma frase tão certa quanto "doces de preços salgados" tem um gosto meio amargo. Ah, a festa que eu esperava acabou antes de começar.

Bem, agora tenho que me despedir de você aqui no computador porque você deve aparecer ali no interfone a qualquer momento.

Beijo,

Ortega

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Que belo estranho dia para se ter alegria

Rio de Janeiro, 10 de agosto de 2007

Oi Ortega!

Finalmente coloco em prática a nossa idéia de ter um blog para postar nossas cartas abertas. Ainda não havíamos discutido bem como seria, certo? Pensei que poderia ser um espaço para postarmos cartas abertas para qualquer pessoa – pode ser, sei lá, para o presidente, por exemplo. Não só carta de um para o outro. Tudo bem assim? E já pensou se abrimos ou não o blog para outros amigos também postarem? O que acha?

Então... da última vez que nos falamos, pelo telefone, eu estava meio triste, carente, não sei se percebeu. É que estava me batendo assim um sentimento de solidão de estar aqui no Rio sem amigos. Nunca tive muitos amigos, mas em BH é diferente, ligo para alguém para ir na Savassi tomar um café e pronto. Entende, né?

Mas sabe, aquilo foi passando logo naquele dia. Saí com a Marina. Fomos a um bar em Ipanema, chamado Empório, conhece? Ficamos conversando durante um tempão, ela me contando do novo emprego dela, a gente falando das diferenças entre cariocas e mineiros. Foi bem legal.

E hoje foi um dia especialmente bom para mim. Saí com meu irmão quando ele foi para o trabalho. Almoçamos juntos lá no centro, conheci o lugar onde ele trabalha e depois fui passear sozinha por aquela região, que você já deve conhecer bem, né? Fui à Biblioteca Nacional. Conheci uns argentinos, fiquei encantada em meio ao acervo colossal, quero ir logo lá fazer umas pesquisas (assunto para uma próxima carta, ok?)... Depois fui ao Museu Nacional de Belas Artes e vi uma mostra contemporânea por lá. Muito legal também, mas confesso que sempre entorto um pouco a cabeça para aquelas artes muito abstratas...

Depois fiquei um pouco sentada ali na Cinelândia, observando o movimento. Estava sozinha, mas não mais me importando. É mais ou menos assim que vou ficar em Londres, imagino. Passeando por lugares, visitando museus, conversando com pessoas de outros países. Pretendo sair assim sozinha a semana inteira. Depois te conto meu itinerário. Estarei imersa em meus pensamentos, contando mesmo comigo como minha melhor companhia. Acho que você sabe bem como é essa sensação depois de morar um tempo por aqui...

Logo a Marina me ligou, e sem combinar nada, descobrimos que estávamos no mesmo lugar. “Estou na Praça Marechal Floriano Peixoto”, ela disse. “Ah, Marina, você está na Cinelândia”, eu disse, com todo meu conhecimento de história do Rio de Janeiro. Esperamos meu irmão sair do trabalho e fomos à Confeitaria Colombo comer uns doces de preços bem salgados.

Amanhã cedo já combinei de ir à praia com a Marina. À tarde vou lanchar com um amigo em Copabacana e depois passo na sua casa, ok? Vai ter aquela festinha no apartamento da sua amiga?

Conte-me também como foi em São Paulo.

Um beijo,

Mari

(carta escrita ao som do novo disco da Roberta Sá, Que Belo Estranho Dia Para Se Ter Alegria)